quarta-feira, novembro 14, 2007

Há dias assim... #33

Ao acordar um pensamento... e daí toda uma dinâmica decorre. Vagueia de lembrança em lembrança; de pensamento em pensamento; de ideia em ideia... e de tal forma o meu pensamento flui que nem reparo que estou a magicar algo impossível, impensável, inimaginável, quase inadmissível. Caio em mim, percebo que me deixei ir pela ideia sem me condicionar pela realidade, pelos acontecimentos recentes, pelo inevitável, o inegável, o irreversível...
Caio em mim. Apercebo-me da aberração do pensamento, viajo brevemente no tempo e paro naquele que foi um dos mais sofridos dias da minha vida.
Choro!
Choro sem lágrimas primeiro.
Choro pela perda.
Choro pela dor, pela falta, pela saudade, pela injustiça, choro...
E choro pela lembrança. Agra já choro com lágrimas e sinto-me injustiçada. Sinto que não é ético. Penso que não houve correcção para comigo. Não me deixaram ganhar fôlego para enfrentar tudo. Simplesmente, ao toque de um telefone, me vi obrigada a enfrentar tudo. Primeiro com coragem, fazendo o que era necessário, dando a notícia a quem de direito, confortando quem necessitava... meio adormecida, como aliás, sempre faço. Faço tudo o que há a fazer, trato do que há a tratar e quando os outros começam a reagir, então aí já me concedo o tempo e o direito de parar e perceber o que estou a sentir.
E então choro!
Há imagens que me acompanharão para o resto da vida. E não são belas fotos do entardecer à beira-mar. São fotos chocantes, pouco bonitas, quase impróprias. Proibidas. Mas estão comigo...
Há dias em que o acordar é de uma violência inusitada! Apetece fazer stop e rewind para que o despertador volte a tocar e tudo se passe de forma diferente.
Há dias em que o pensamento corre a uma velocidade estonteante. Sem que o consigamos parar, sem que demos por isso, acabamos na beira de um abismo, em alto mar em noite de tempestade sem luar, no meio de selva cerrada sem bússola, ou sol que nos dê o norte.
Há dias em que a realidade nos cai no colo com uma violência desmesurada. Até já se sabia, até já se tinha falado no assunto, até já se tinha chorado e partilhado a dor, mas não era real, não havia sangue nas lágrimas, não havia a fatalidade do nunca mais...
O choro é a purga dos males da alma... Mas há males que exigem mais lágrimas, maiores lágrimas, lágrimas mais profundas... Há choros que não se ouvem, não se mostram, não se partilham... Apenas uma ou outra lágrima que cai face abaixo e leva consigo mais uma ínfima parte desta dor.
Quantas lágrimas serão precisas?
Há dias em que o que já estava à nossa frente resolve esmurrar-nos, abanar-nos, como que nos trazer de volta para uma dura realidade de que fugimos sem que se dê por isso.
Não falar, não implica não pensar... implica não purgar!
Há dias em que o pus brota de uma ferida tão infectada que exige intervenção urgente sob pena de que o mal se espalhe. Gangrene...
Há dias em que o choro e as palavras começam a tirar a crosta de uma ferida que parecia sarar apenas à superfície.
Há dias em que um passo atrás é apenas uma fase de um processo que terá muitos e muitos passos em frente...
Há dias assim...

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