Não é bem coincidente com o ano civil, mas é ano novo de aniversário... A altura de mudar anunciava-se há já algum tempo e o go with the flow impera. Serenidade e calma são o mote, mas sempre com atenção redobrada, não vá o Diabo tecê-las... que é como quem diz, a vida profissional está prestes a dar uma volta de alguns graus... acima dos 90º certamente!
Às vezes a tinta parecia querer sair de rompante. Cada gota, cada pedaço, cada borrão... Empurravam-se nervosamente na esperança de mais cedo tocar o papel. Era tanta e tão ansiosa que a caneta não parava jamais. Era um frenesi incomensurado! Nada naquele momento era mais importante que o fluir. Talvez sem forma, quem sabe que conteúdo, o sentido uma incógnita, o objectivo indefinido... Simplesmente ía fluindo. Gota após gota, simplesmente formava desenhos no papel. Curvas e mais curvas, só precisava de se soltar daquela prisãoque era de plástico transparente. De dentro viam papel limpo, imaculado, vazio, à espera de receber, receber... receber tinta, receber curvas e mais curvas, receber palavras, frases parágrafos... com e sem pontuação. Ideias, conceitos, emoções... sentimentos até, embora esses fossem de outro patamar, outra hierarquia, outra complexidade, outra razão ou falta dela e de novo a emoção, o emotivo...
Tinta! Apenas tinta que saía de um tubo trnasparente, por não mais suportar a prisão no conhecido...
E porque há alturas em que simplesmente devemos aparecer... ou desaparecer... E porque há dias em que apetece dizer olá de longe sem ver ou ser visto... E porque há momentos que se guardam na memória para não mais se sentir... E porque há emoções que repetiríamos ad eternum, sem condicionalismos, medos, cobranças, agonias... E porque há sorrisos e olhares que se perdem no tempo e no espaço sem que deles nos consigamos desligar... Porque sim e porque não... Simplesmente!!!
Não sabia muito bem por onde começar. Era notória a desordem e necessidade de limpeza e arrumação. Parecia que uma grande tempestade tinha arrancado as portadas e tinha invadido aquele espaço para à sua passagem deitar tudo ao chão depois de algumas voltas loucas pelo ar. Tudo espalhado. Algumas quebras importantes. Não se percebia muito bem o que teria acontecido. Poderia ter sido a tempestade, um tremor de terra, um assalto, simplesmente vandalismo. Mais importante do que perceber o quê e porquê, achou que seria devolver a ordem. De pé, à entrada, limitava-se a observar. Estava escuro; era difícil perceber a verdadeira extensão dos estragos. Percebia-se que não seria tarefa rápida ou fácil... Precisou de mais uns momentos para apreciar o cenário e decidir por onde atacar primeiro. Sabia que seria tarefa que requeria um trabalho só seu. Não podia pedir a alguém que lhe devolvesse uma ordem que não fosse a sua. Por mais uns instantes ali ficou a olhar, como que a estudar cada pedaço do estrago feito. Não sabia muito bem como, mas sabia que para lá da dificuldade conseguiria devolver-lhe a ordem e harmonia...
Arrepiou-se! Talvez fosse o ar condicionado... Sempre descontrolado... Ora frio, ora calor. Nunca se sabia muito bem o que vestir...
Sabia-lhe bem sentir o toque suave do longo cabelo nas partes descobertas das suas costas... Nos ombros a céu aberto. Um decote simpático também deixava que uma ou outra madeixa lhe beijasse a pele. Gostava do toque.
Aliado ao toque uma memória olfativa... Quase podia imaginar-se noutro lugar.
Numa luta contra o próprio eu, tentava não se deixar levar pelas sensações... pelas emoções... Sabia que nenhuma delas alimentaria sentimentos, se levadas a extremos incalculados...
Pretendia ponderar... sempre agir com a razão... Mas era, no fundo, uma pessoa de emoções... E até gostava... Tal como sorrira de manhã cedo, ao receber o Bom Dia de um simpático pardal que cantarolava alegremente, gostava de sorrir do nada. Por um reflexo de raio solar. Por um cheiro de gaivota a planar. Por um olhar longínquo mas profundo. Por um toque de madeixa num peito desnudado.
Gostava de se saber emocional. Mas um pouco de razão não fazia mal... Um pouco mais de pensamento comedido pelo respeito pelo espaço de outrém... Gostava de sentir os picos de adrenalina, o coração a bater, o suor a espreitar, as mãos a tremer, pupilas a dilatar... Gostava! Sentia-se viva. Sentia-se humana. Sentia-se feliz... Gostava de repetir vezes sem conta que a felicidade se constrói das pequenas coisas. Sorria constantemente sem razão aparente. E esses sorrisos tornavam-na numa pessoa alegre, bem-disposta... "Sorriso sempre pronto", já lhe tinham dito. "Inspirador", também ouviu... "Obrigas a que te sorriam de volta"...
Era algo natural. Como tudo o que fazia... Levada pelas tais das emoções que às vezes gostava de controlar um pouco mais, era considerada uma pessoa espontânea...
Gostava de ser emocional, de sorrir sem razão, de fazer elogios inesperados, de abraçar... Gostava! Gostava de gerar sorrisos em lábios alheios. De ver os olhos brilhar. De sentir emoção no ar.... Gostava!
Gostaria também, de quando em vez, de estar certa do seu espaço... De não se sentir imensa. Demasiado. Gostava! Gostava de estar certa de fazer sempre o melhor... não só para ela... Era egoísta, sim, mas não a esse ponto. Queria estar bem, sorrir, ser feliz... Mas mais que isso, gostava de sentir que era capaz de gerar um sorriso inesperado, de proporcionar um momento de felicidade incalculada, de despertar o gosto por uma felicidade mais comum, mais do dia-a-dia, mais regular, mais simples, mais real, mais palpável, mais presente, mais feliz...
Pela janela entra uma luz fim-de-tarde... Porta escancarada, entram cheiros de Primavera... O mar ao longe marca presença somente subtil. Está lá, eu sei... mas mantém a discrição... O meu canto laranja está preparado para me receber. Almofadas aconchegadas, aparelhagem a postos, livro de poesia, revistas de decoração, uma tela, pincel e tintas... chávena de chá a fazer... O pôr-do-sol... Aquela altura depois... em que ainda há luz, mas já não sol... Em que a noite chega. Em que algo morre e algo se renova. Em que tudo se prepara para o sossego... A primeira estrela que surge num céu azul forte... Lembranças e sorrisos... Pensamentos e tristezas... Palavras e olhares... Um aperto cá dentro mostra-me as meias e a manta mesmo à espera que me enrosque... Nuvens a contraluz. Gata que me beija a mão. Gato que se aninha. Encolho-me no meu canto laranja. Deixo a mente voar para onde não deveria. Deixo o coração bater pelo que não poderia... cinco minutos de nada... emoções de tudo... Nada nas minhas mãos, tudo no pensamento, na mente, na alma, no coração, na memória... Estou aqui e por aqui estarei... no meu canto laranja com luz fim de tarde e cheiro Primavera...
the boy with the thorn in his side behind the hatred there lies a murderous desire for love how can they look into my eyes and still they don't believe me? how can they hear me say those words still they don't believe me? and if they don't believe me now will they ever believe me? and if they don't believe me now will they ever, they ever, believe me?
the boy with the thorn in his side behind the hatred there lies a plundering desire for love how can they see the love in our eyes and still they don't believe us? and after all this time they don't want to believe us and if they don't believe us now will they ever believe us? and when you want to live how do you start? where do you go? who do you need to know?